♪♫ Carta aberta aos músicos e artistas, por João Parahyba (Trio Mocotó)

João Parahyba

Projeto Música Brasil:

“Caros companheiros artistas e músicos do Brasil,

Estamos num momento histórico de mobilização onde todos, ou quase todos estão lutando pela sobrevivência e manutenção da nossa música. Nos últimos dias tenho refletido sobre tudo que passamos nesses últimos meses, anos e décadas, e me veio na cabeça. Quem são os verdadeiros sujeitos disso tudo que está acontecendo na música brasileira, ontem, hoje e amanhã?!

Somos Nós! Artistas! Músicos e autores! Que fazemos desta arte a nossa vida, e no que diz respeito a estilos, gêneros e ritmos. Somos únicos! Sem nós, não existe música…. CD, DVD, Fonograma, rádio, show na televisão, mostra, festival, baile, casamento, carnaval e São João. Não existe nada!

Apesar de respeitar todos que estão participando deste debate, as entidades, os jovens produtores da nova geração, que hoje tem uma organização e discurso forte em prol de uma política cultural mais justa neste país, não vejo os interesses do artista e do músico com equilíbrio nesta balança entre os produtores de festivais, empresários da música, entre outros. Nosso problema é imediato: vivemos do nosso trabalho!

Ao ler o relatório da Rede Música Brasil (leia aqui), percebi que os projetos de maior valor contemplam os produtores de shows e festivais, empresários artísticos, pontos de rede e pontos de cultura, mas não diretamente a sobrevivência do artista. Com a queda brutal do mercado musical como CULTURA, hoje COMMODITIES, com a história desta política de show de graça, etc. e tal não existe subsistência, sobrevivência e sustentabilidade em toda cadeia. Estamos acabando com a iniciativa privada desde país, e ficando escravos dos editais. O funil das gravadoras e empresários artísticos do passado está hoje na máquina pública. Assim nunca construiremos um mercado cultural sustentável e verdadeiro.

E honestamente, depois de 40 anos de carreira e de ter tocado no mundo todo, não venham me dizer que festival e mostra de música é única e exclusivamente uma vitrine para quem está começando ou para quem está um pouco sumido da mídia, ou ainda, uma forma de formar público novo. Pois isso é o óbvio. Mas isso também hoje é uma vitrine para o nome do festival, para os produtores e entidades organizadores, para o marketing das grandes empresas e principalmente para o governo. E esses proponentes muitas vezes obtêm fonte de renda que mantêm toda a estrutura de suas empresas através desses editais públicos, estaduais, municipais e federais. Principalmente com dinheiro público e quase 100% sem investimento privado, digo dos pequenos empresários, os proponentes, não das grandes empresas que utilizam esses editais e leis para fazer somente marketing, e não cultura.

Vejam: quase todos os festivais e shows já têm apoio do seu município, do seu estado, (conquista deles é verdade) e muitos da grande iniciativa privada, e quase todos, com a desculpa da promoção e da formação de público não pagam cachê aos artistas e músicos convidados “é divulgação Etc. e tal”, mas não justifica, pois ganha pão, é ganha pão. “Não peçam para eu dar de raça a única coisa que tenho para vender, minha música, minha arte”. (Cacilda Becker)

Isso é jabá institucionalizado, igual às rádios que tanto reclamamos há décadas. Quer tocar aqui é assim, você paga para estar aqui. Absurdooo! E se reclamar não entra mais na rádio, TV e/ou no circuito dos festivais, como temos exemplos de vários amigos artistas que foram excluídos das rádios e dos festivais por se manifestarem contra o jabá e/ou não pagamento de cachês nos festivais pelo Brasil afora. Isso hoje, como há 30 anos vem acontecendo.
Estamos criando outro monstro!?

Gostaria de saber da Funarte e do Minc o seguinte: em todos estes editais, nos trabalhos artísticos e musicais estão previstos o pagamento dos nossos cachês?!

Olhem os valores dos projetos enviados no relatório final da Reunião do Colegiado de Música, CNPC e Rede Musica Brasil:

Edital de Passagens: R$ 5 milhões (Mais dinheiro para levar o artista convidado para tocar nos festivais nacionais e internacionais… lindo! Um custo a menos principalmente para os Festivais Nacionais que já tem o estado, o município, a iniciativa privada, e agora o governo federal, mas cadê o cachê?)

Edital de Festivais: R$ 7 milhões (Mais “dinheiros” para produção dos Festivais Nacionais, Lindo! Vamos melhorar a produção dos festivais, mas cadê o cachê?)

Bacia do São Francisco: R$ 4 milhões (Lindo! Vamos lá! Mas os projetos não têm que ser nacionais? E os outros estados do nordeste, cadê a bacia do Guaíba no sul, bacia do Tietê no do sudeste, Pantanal no Centro Oeste e a Bacia Amazônica no norte?)

Clareira: R$ 2,4 milhão – Lindo! Mas também não é nacional!!?

Banco de Artistas: R$ 1,5 milhão – Lindo! Mas 200 artistas divididos por 27 estados, 7,4 artistas por estado. É isso.?!

Edital de rádios Arpub: R$ 500 mil - Lindo! Mas elas vão pagar direitos autorais ao ECAD?

Congresso: R$ 1,5 milhão – Lindo!

Capacitação + Exportação: R$ 1,9 milhão – Lindo!

Banco de Dados: R$ 1 milhão – Lindo!

Redes de Música: R$ 6 milhões – De novo pontos de cultura. Já não tem dinheiro para isso no Minc? Já temos redes, e mais redes formatadas pelos estados e municípios… isso poderia se reverter em algo mais urgente para a nossa cultura, como formação de músicos, formação de orquestras etc. e tal.

Acredito que ainda é tempo e é imprescindível a classe artística e musical se manifestar nestes editais de R$ 7 milhões, R$ 5 milhões, R$ 6 milhões, e que este dinheiro seja utilizado também para pagar os artistas, músicos e autores nestes festivais, mostras, shows, workshops, já que o resto, os festivais já estão contemplados, e já estão muito bem estruturados.

E, antes de mais nada e independente de qualquer coisa, precisamos que os artistas estejam nas curadorias, nas escolhas dos critérios, junto aos proponentes, de como, e para quem vai este dinheiro, e colocar todos segmentos da nossa música para serem prestigiados por estes editais, tais como: música Erudita, MPB, Instrumental,…e por ai vai.

Abraços,

João Parahyba”

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Carta publicada na lista de discussão Rede Musica Brasil e liberada pelo autor para sua publicação no Scream & Yell.
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João Parahyba começou sua carreira aos 18 anos, na boate Jogral, em São Paulo. Como percussionista contratado da casa acompanhou artistas como Cartola, Clementina de Jesus, e participou de históricas jam-sessions com Hermeto Pascoal, Earl Hines e Michel Legrand. Uma dessas canjas tornou-se frequente: Jorge Benjor no violão, João na timba, Nereu Gargalo no Pandeiro e Fritz Escovão na cuíca. Nascia o Trio Mocoto formado para acompanhar Benjor no Festival Internacional da Canção de 1970. De 1970 a 75 o Trio Mocotó viajou pela Europa com Benjor, participou de gravaçoes como “Pais Tropical”, “Que Maravilha”, “Samba de Orly”, do LP “Força Bruta”, acompanhou Vinicius e Toquinho no show “Encontro” e lançou dois LPs com o Trio Mocotó.

Em 1981 foi para os Estados Unidos estudar composição e arranjo no Berklee College of Music (Boston). De volta ao Brasil iniciou uma sólida trajetoria como instrumentista acompanhando Ivan Lins e César Camargo Mariano. A partir de 1990 se envolveu também com produção e foi parceiro de Mitar Subotic, o SUBA, produzindo projetos independentes e participando da maior parte de seus trabalhos com Arnaldo Antunes, Bebel Gilberto e Edson Cordeiro, entre outros. Em 2000 reuniu o Trio Mocotó e começou a colaborar com artistas da cena eletrônica como DJ Marky, Patife, M4J, Anvil FX. Em 2004, com o Trio Mocotó lançando um novo disco, saiu em turnê por toda Europa. 2007 foi o ano do Trio Atlântico (com Pascal Lefeuvre & Carlinhos Antunes), que excursionou pela França e Espanha. Em 2008, comemorando 40 anos de profissao João Parahyba formou a banda Komanche’s Groove Band e o Quarteto Parahyba Jazz.

* Fonte: Scream & Yell - 13/abr/2010

2 comentários:

  1. Comentário postado na *Fonte:

    Tenho acompanhando esse debate em várias frentes, lendo comentários, ficando a par de como as coisas funcionam (ou deveriam funcionar) e, mesmo com mais de dez anos de estrada na militância cultural, ainda estou construindo minha opinião.

    Percebo que, após a derrocada das majors, há uma grande articulação de produtores de festivais para ditar as regras da música no Brasil - e o pior, os investimentos públicos para o segmento. Estão invertendo os papéis: o músico e a música, que deveriam ser as estrelas da festa, se transformaram apenas em um detalhe perfeitamente descartável do tipo: não gostou, sai fora que tem um monte de gente querendo teu lugar, ou ainda, se não está conosco está contra nós.

    Afinal, o que importa é a realização de eventos/festivais? A viabilização de projetos com verba pública? Ou a música, o fortalecimento dela e a possibilidade dos músicos viverem dela?

    A cena que está sendo montada e encenada por grande parte dos produtores de festivais (diga-se de passagem uma teia forte, intrincada, que conquista adeptos em troca de 15 minutos de fama) demonstra fragilidade e falta de propósito no que se refere a construção real de oportunidades, onde só quem está se dando bem com música é quem produz evento e não quem toca.

    Sugar o sangue da molecada deslumbrada nos festivais em troca de holofote é fácil, o problema é que 95% dessa mesma molecada não vai viver de música quando crescer, quer dizer, se criarem um festival e rezar na cartilha talvez até consigam! Quero ver se o músico por vocação, que respira e estuda música, vai se sujeitar a vender a própria arte pra ficar bem na fita?! Pra fazer parte da patota que está ‘usando’ verba pública pra promover o próprio negócio - e que fique claro que o negócio não é música, e sim eventos!

    Concordo 98% quando comentaram aqui que esses mesmos produtores/festivais, que tanto enaltecem a cena independente, são responsáveis pela triste realidade atual: bandas sem sustança, bandas efêmeras, musiquinha básica em todos os sentidos… ninguém vai ficar pra posteridade, ninguém marcará uma época, ninguém quebrará paradigmas, ninguém será lembrado nem muito menos será responsável pelo surgimento de um novo movimento.

    Querem desqualificar o debate resumindo tudo aos festivais/eventos, enquanto o música/músico fica cada vez mais refém dessa situação. Travestidos de bem feitores articulados, facilmente reconhecidos pelo visual ‘bermudão/tênis’, conseguem verbas e se esquecem a verdadeira razão da própria existência: a música!

    Dono de festival não deve ditar as regras do mercado nem canalizar investimentos públicos. Festival é apenas a ponta do iceberg da cadeia produtiva, é a vitrine, e não a base!

    Está na hora dessa turma assumir qual o real perfil do negócio, e esse negócio não é música! A partir daí podemos abrir um debate franco com todas as cartas na mesa.

    Abraços,

    Yuno Silva

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  2. João Parahyba, Muito prazer em conhecê-lo!!!

    Também fui freqüentadora do Jogral, em São Paulo, desde quando na Avenida São Luís e em seguida no Paraíso. Possivelmente lá estivemos em momentos simultâneos, ao lado do nosso querido e inesquecível Luís Carlos Paraná.

    Espero que sua carta desperte a reflexão, de muitos que a leram, para a questão da dignidade profissional do músico. Não somos bobos da corte, somos profissionais como os de qualquer outra categoria. Não queremos mais cachês, queremos ser remunerados pelo trabalho que executamos.

    Mudar o nome das coisas também contribui para mudar a atitude diante delas. Logo, mudemos nossa atitude profissional em defesa da nossa dignidade. Do contrário, seremos sempre e tão somente “muito úteis” ao marketing camuflado das grandes empresas e governo, que conta com todo o nosso apoio.

    A quem interessa isso? Aos músicos? Se fosse aos músicos esta estrutura não seria tão organizada, eficiente e eficaz. Pode ter certeza! Se fosse aos músicos esta estratégia geraria continuidade e permanência no mercado de trabalho; Contribuiria para a expansão da cultura e não para a restrição á cultura dos Festivais.

    Claro que isso interessa a “esses proponentes que muitas vezes obtêm fonte de renda que mantêm toda a estrutura de suas empresas através desses editais públicos... utilizam esses editais e leis para fazer somente marketing, e não cultura”...

    E você, ainda, afirma com muita propriedade: “Somos Nós! Artistas! Músicos e autores! Que fazemos desta arte a nossa vida, e no que diz respeito a estilos, gêneros e ritmos. Somos únicos! Sem nós, não existe música... CD, DVD, Fonograma, rádio, show na televisão, mostra, festival, baile, casamento, carnaval e São João. Não existe nada!”

    Então...Por que alimentamos esta máquina? O que se observa é a intensa movimentação de músicos jovens em busca dos Festivais. Não são os Festivais que estão correndo atrás dos músicos que são os profissionais indispensáveis para a sua realização e para o seu sucesso. Curioso, hein!!! Eles estão, sim, definindo os limites de nossa participação. E na arquibancada nós torcemos para não ficarmos entre a grande maioria dos excluídos.

    Mudar o ângulo em que olhamos as coisas pode fazer uma grande diferença no que estamos vendo.

    Não somos nós que estamos entregando o ouro ao bandido??!!!

    Libertas Quæ Sera Tamen

    Sacha Lídice Pereira

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